Jung e as joias do infinito

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Em um estalar de dedos (laborioso,prolongado,refletido), C.G. Jung modificou a psicologia moderna, influenciando basicamente todas as modalidades psicoterapêuticas “pós-psicanalíticas”, além da própria filosofia e demais “ciências humanas”. Jung acessou algum tipo de conhecimento secreto pra isso? Estaria ele na posse da joias do infinito? Se sim, ele teve a sagacidade de preparar uma manopla bastante forte para suportá-lo e, como sempre, bastante intuitiva, visionária. Herói ou vilão?

Para quem não sabe, as “Joias do infinito” são artefatos que incorporam o universo ficcional das histórias da Marvel Comics. São seis singularidades transformados em pedras por entidades Cósmicas (Morte, Entropia, Infinito e Eternidade), sendo que cada jóia representa um aspecto do universo.

Espaço (azul) encontrada dentro do cubo Tesseract; Mente (amarela) no Cetro de Loki e depois na testa do Visão; Alma (laranja) em Vormir, com o sacrifício do Caveira Vermelha; Realidade (vermelha) com elfos negros, fluido Aether, com Thor; Tempo (verde) no Olho de Agamotto, com Doutor Estranho); Poder (roxa) fica em Morag com Senhor das Estrelas. Uma história posterior adicionou a existência de uma sétima joia, Ego (dourada). As jóias podem ser usadas isoladamente, mas quando usadas em conjunto o portador torna-se onipotente e onisciente, como uma divindade, sendo capaz de controlar todo o universo. Primordialmente usada por Nemesis e usada atualmente pelo titã Thanos, que criou a luva Manopla do Infinito.

Com todo esse jogo de palavras, piscologia das cores, elementos fabulosos, fantasias e princípios alquímicos, sou levado a me questionar, Jung teria usado essas joias?

Tirem suas próprias conclusões (favor fazer leitura metafórica, bem humorada e não literal)…

Ego: permite ao portador saber os segredos do universo e manipular as energias extra-dimensionais. (Conceitos similares e relacionados: self, individuação, função transcendente)

Espaço: Faz o portador viajar através do espaço, principalmente através de teletransporte ou estar em vários lugares ou em todos ao mesmo tempo, dá ao portador a habilidade de rotular o espaço, podendo mover e controlar tudo a sua volta, indo além das leis da gravidade apenas com a mente, e também aumentar a velocidade do portador e dos objetos. Capaz de interferir com o movimento de objetos, torná-los intangíveis, permitindo que dois objetos dividam o mesmo espaço. (Conceitos similares e relacionados: arquétipos, inconsciente, sincronicidade)

Mente: Permite ao portador o aumento infinito da capacidade mental e o acesso à pensamentos e sonhos de outros seres. Em suma, o poder da joia permite acesso a todas as mentes existentes simultaneamente. Embora o poder da jóia seja imenso, nem sempre o seu portador é capaz de dominá-lo totalmente. Se o campo de abertura da leitura é efetuado simultaneamente para muitas mentes, trocas de pensamentos podem ocorrer, e dúvidas a respeito da origem do pensamento. O leitor também pode ser sugado pelo inconsciente coletivo das outras mentes.  (Conceitos similares e relacionados: transferência, símbolos, empatia)

Alma: Possivelmente, a mais perigosa, permite ao portador roubar, manipular e alterar almas, dos vivos e dos mortos. E até ressuscitar os mortos, remover a alma de algum ser vivo, prendê-la numa dimensão de bolso dentro da Joia, imortalizar um ser vivo, dar vida a seres não vivos, criar almas, e, até mesmo, enviar algumas ao passado ou futuro dentro do corpo do dono da alma, em outro corpo ou fora de qualquer corpo, reconstituir corpos destruídos e até corpos desintegrados e até construir corpos com ou sem almas e entre outras coisas, a Jóia da Alma pode fazer. (Conceitos similares: transmutação, processo terapêutico, individuação)

Realidade: Possivelmente a mais poderosa e a mais difícil de se controlar, permite ao portador realizar qualquer desejo e vontade – mesmo que entre em contradição com as leis da física. Pode resultar em um desastre se o portador não for cuidadoso com a natureza do desejo. Permite o portador distorcer, alterar e manipular a existência e o tecido do universo, dando-lhe quase omnipotência. (Conceitos similares e relacionados: energia psíquica, inflação egóica, possessão simbólica, tipos psicológicos)

Tempo: Permite ao portador total domínio do tempo: passado, presente e futuro, são todos acessíveis e visíveis com esse poder, mesmo após algumas horas depois do portador não ter mais acesso a ela. Com treinamento suficiente no uso da joia, o tempo pode ser usado como uma arma, aprisionando inimigos ou mundos inteiros em infinitos ciclos de tempo. (Conceitos similares e relacionados: Chronos, aion, sincronicidade, processo terapêutico)

Poder: além de aprimorar as habilidades físicas de seu portador, o deixando invulnerável, também lhe permite ter uma fonte infinita de energia, absorvida dos confins do cosmo, capaz de destruir planetas ou sistemas estelares inteiros. Ela também pode aprimorar o poder das demais joias caso esteja junto delas. (Conceitos similares e relacionados: tipos psicológicos, individuação, heroísmo)

Quem nos dera os problemas pudessem ser exterminados com um estalar de dedos como o vilão Thanos na posse da Manopla do Infinito fizera uma vez no filme dos Vingadores. Quantas vezes queremos explodir o mundo não é mesmo? Apesar de não termos tamanho poder, imaginemos na posse das jóias. Elas representam cada aspecto do universo que termos de haver durante a jornada da vida e o teórico C. G. Jung pode nos ajudar nessa compreensão. Espaço, Tempo, Mente, Alma, Realidade, Poder e (Ego?). Ao espaço devemos dominá-lo e envolvê-lo com nossa energia psíquica, procurando adaptar de maneira a não prejudicar ou constranger a individuação (prrocesso de desenvolvimento rumo ao si mesmo, crescimento espiritual). Isso leva tempo, o amadurecimento é lento e gradual, muitas vezes misterioso, sendo apresentado a nós por meio de sincronicidades (temporalidades significativas e não-lineares). Nossa alma precisa estar em constante análise para vivenciar o tempo significativamente, desfrutando de aperfeiçoamentos, mas sempre em contato com a sombra, com aquilo que negamos, escondemos. A mente é a concretização de uma função pensante da alma. A racionalidade proveniente dela vem discernir através da realidade e, condizente ao nosso tipo psicológico (personalidade), as melhores formas de interação e execução do corpo no meio, na relação com outros indivíduos. Podemos cair na ilusão do controle através da mente assumindo determinadas patologias. A sensação de poder pode advir de um descuido, uma falta de amor, para dizer de uma maneira poética, vínculos tantalizantes (mortíferos/violentos). Quando a individuação não se procura realizar, ou estamos dominados demais por aspectos inconscientes, lançamos em uma luta inglória contra a realidade. O destino nos engole. Confundimos o nosso ego ao próprio mundo, cegamos, resistimos à mudança em detrimento de defesas infantis, neuróticas. Uma vida saudável é aquela em que aprendemos a usar bem todas essas joias, usufruir do seu brilho, contendo excessos, manias, desejos impensados, angústias e padrões. Não é fácil. Uma verdadeira tarefa de herói, tanto que Jung usava esse modelo como metáfora para o próprio desenvolvimento pessoal. Seja um herói da sua existência!

 

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As 7 imagens da Catarse

Autor: David Miller

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Metaforicamente, kátharsis apresenta sete imagens.

1) Num papiro antigo, kátharsis é “abrir, limpar”, como se limpa um terreno, removendo pedras e gravetos.

2) Em outro papiro, kátharsis é “joeirar”, como na separação de grãos.

3) Diocles usava o Urino como uma imagem de “limpar”, na descrição do processo de limpar o alimento através do cozimento.

4) Teofrasto, em seu ensaio “Das Plantas”, usava kátharsis com relação a árvores, no
sentido de “podar”.

5) Filodemo, em seu ensaio “Da Liberdade da Palavra”, e também Epicuro, em suas Cartas, usavam a mesma palavra com o significado de “esclarecimento” alcançado através de uma explicação.

6) Galeno usava kátharsis no sentido de “cura” de uma doença através da aplicação do remédio.

7) E para Crísipo kátharsis era a “purificação” do universo por meio do fogo.
Limpar o terreno, joeirar o cereal, limpar através do cozimento, podar árvores,
esclarecimento pela explicação, cura pela medicação e purificação pelo fogo são sete
imagens da purgação. Mas essas sete imagens apresentam dois modos: catarse por subtração, divisão ou separação, e catarse por adição ou complementação. Por um lado, quando o terreno é limpo, o grão joeirado, as árvores podadas, a coisa indesejável é retirada ou separada da desejável. Da mesma forma, quando a explicação esclarece o que era obscuro, a análise separa as idéias permitindo que o pensamento tome posse de contrastes incisivos. Por outro lado, quando a doença é curada pela medicação, o indesejável é complementado por um agente transformador de modo a estabelecer a harmonia desejada. Igualmente (na suposição da física de que a matéria é indestrutível), quando o alimento é limpo pelo cozimento e o universo é purificado pelo fogo, o trabalho de transformação purgativa se completa na unificação da adição. Esse é o significado do termo kátharsis.

Catarse (Terapia) na Psicologia: Freud e Jung
A psicologia profunda tomou as duas direções do termo “catarse”. Mostrou a
terapia como clarificação e inteireza. As teorias de Sigmund Freud são exemplo da primeira; as de Jung ilustram a última. Isso pode ser visto com mais clareza nas respectivas teorias dos sonhos.
Um homem teve o seguinte sonho: “Vou atravessar um rio. Procuro uma ponte,
mas não tem. Sou pequeno, tenho 5 ou 6 anos. Não sei nadar. [De fato, ele aprendeu a
nadar aos 18 anos.] Vejo um homem alto, moreno, fazer sinal de que pode me levar no
colo. [O rio tem apenas um metro e meio de profundidade.] Fico contente e deixo que
me pegue. Quando ele me carrega e começa a andar, sinto-me subitamente tomado de
pânico. Sei que se eu não prosseguir, vou morrer. Já estamos dentro do rio, mas reúno
toda minha coragem e pulo do colo do homem para a água. Primeiro, acho que vou me
afogar. Depois começo a nadar e logo chego a outra margem. O homem havia
desaparecido.”
Na questão da interpretação desse sonho, a psicologia se divide. Na conceituação freudiana, os sonhos são sintomas de doença. O sintoma-sonho aponta para um drama pessoal situado no passado, um enredo que envolve personagens dramáticos importantes mãe, pai, irmãos. A doença consiste na irresolução e no recalcamento do conflito pessoal ou na ambigüidade com relação aos papéis. No caso desse sonho, a indicação do significado e da cura será encontrada na antiga ansiedade resultante da dependência de uma pessoa que ele julga que deveria amar, mas em relação a qual se sente dividido.

A conceituação jungiana oferece uma perspectiva diferente, pois os sonhos não
são considerados sintomas de uma doença, e sim visões ou imagens significativas. Os
sonhos são imagens de saúde e inteireza.8 A visão-sonho aponta para um futuro drama vocacional, é uma indicação de um enredo futuro que solucionará as dificuldades pessoais do momento. Nesse sonho há uma indicação otimista sobre a vida futura do sonhador. Se ele seguir a indicação dada pelo sonho e nadar sozinho pelas águas potencialmente vitalizantes da vida cotidiana e de suas inclinações mais profundas, por mais sombrias e ameaçadoras que essas águas se apresentem a princípio,tudo estará bem.

Certamente, essas interpretações foram extremamente simplificadas aqui, mas a
questão é clara. A psicologia profunda contemporânea não concorda quanto ao caminho
para a catarse porque não tem a mesma visão da natureza da situação humana. De fato,
existem duas abordagens terapêuticas básicas, fundamentadas nesses dois
entendimentos dos sonhos. Se o sonho é considerado como sintoma de uma doença que surgiu num começo de vida complicado, o caminho para a catarse é buscar os significados perdidos do passado, contando ao terapeuta sua biografia. É preciso recordar os velhos dramas, principalmente as ações e situações importantes que aconteceram entre os membros da família, o pai, a mãe e os irmãos. O esclarecimento desses relacionamentos passados e a elaboração dos dramas pessoais não resolvidos, por meio da transferência para o terapeuta dos antigos sentimentos pelos atores originais, levam a pessoa a tornar realista o significado de um tempo presente baseado ritualmente numa cena primai.

O que era inconsciente é trazido a consciência. As ações compulsivas, efetuadas na vida atual devido a incapacidade de ver que são de fato resultantes dos relacionamentos passados, se tornam ações livres quando o drama original é resolvido. Quando se adota a visão de que o sonho é uma imagem da completude, o caminho para a catarse na Psicoterapia é totalmente diferente. Nesse caso, e preciso aplicar as indicações dadas pelos sonhos a vida atual, de modo que o presente seja um trabalho em direção a futura realização desses sonhos. O sonho não é um espelho que reflete a doença pessoal. Nessa concepção, o sonho é espelho mágico que projeta a vocação humana para a realização pessoal. A imagem da realização humana descoberta nos padrões inconscientes do sonho vem a ser um caminho de uma completude para as ações que, de outro modo, continuariam a ser padrões conscientes de comportamento incompletos e compulsivos. O homem atinge a completude.

Entra em contato com as energias libidinais que o suprirão imediatamente com visões transformadoras para unificar suas experiências atuais. O importante é sonhar o sonho com a finalidade de uma complementação parcial dos dramas atuais da personalidade, e, baseando-se simbolicamente numa projeção da satisfação dramática futura, construir a esperança de um sentido para a vida.

Essa revisão é breve demais, mas conduz a visão inequívoca de que há dois
caminhos para a catarse na Psicoterapia contemporânea. Além disso, demonstra que
esses dois caminhos correspondem às duas acepções do termo grego (kátharsis). No
modelo freudiano a catarse é uma recordação, em presença de uma explicação
esclarecedora da história passada enquanto significado atual. No modelo jungiano, a
catarse é a visão da completude, a experiência de unificação e, em resumo, da
transformação.

Fonte: Mitos, sonhos e religião – Joseph Campbell (1970/2001) Ediouro

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O sentido da solidão em Winnicott

maxresdefault.jpgO drama da solidão é não ter quem queira te ouvir…

Em 1963 o eminente médico e psicanalista infantil D.Winnicott escreveu: “Comunicação e não – comunicação, levando a um estudo de certos opostos” onde comenta um caso clínico de uma paciente que, aos 9 anos, possuía um “livro privado” no qual colecionava poemas. Ela escrevera na página de frente do livro a afirmação: “O homem é assim como pensa em seu coração” e a sua mãe lhe perguntara de onde tinha tirado essa frase; isso revelava que ela lera o livro secreto da filha. Winnicott, então comenta: Estaria tudo bem se a mãe tivesse lido o livro, mas não tivesse dito nada. […] Aqui está um quadro de uma criança estabilizando um self privado que não se comunica e, ao mesmo tempo, querendo se comunicar e ser encontrada. É um jogo sofisticado de esconde-esconde, no qual é uma alegria estar escondido e um desastre não ser encontrado.

O funcionamento saudável exige períodos de não comunicação, de recolhimento ao mundo interno, quando precisamos descansar de alguma fadiga ou quando necessitamos realizar aquilo que Winnicott denominava depressão normal, ou seja, reorganizar o mundo psíquico que se tornou ameaçador, em função da dominância dos maus objetos sobre os bons objetos, de impulsos agressivos/destrutivos sobre impulsos amorosos/construtivos. Durante esses períodos de recolhimento, acessamos nossas memórias e registros para compensar o ódio e a destrutividade dominantes por meio de boas lembranças, vivências passadas harmoniosas e, com isso, reorganizamos
o nosso mundo interno, cedendo, novamente, a sua dominância aos bons objetos.

Mas, para realizarmos isso, necessitamos nos recolher ao núcleo do nosso ser, permanecer não comunicantes, isolados, até que novamente, do silêncio possa advir algum sinal de que o perigo foi contornado e que já podemos voltar ao convívio. Não se pode contudo permanecer assim para sempre. A solidão precisa paradoxalmente da companhia, da sustentação familiar. Sem família e apoio, a continuidade do ser não é realizável, o amadurecimento fica comprometido. Muitas crianças e intelectuais sofrem da solidão continuada por não serem compreendidas, muitas vezes invejadas pelo outro.

 

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Breve análise do filme Ad Astra

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Produção que perdeu o brilho devido à grandeza de Coringa, filme lançado ao mesmo tempo nos cinemas. Ad Astra – Rumo às Estrelas fala, de maneira sutil, das condições psicológicas, não tão diferentes das que se abordam nas origens do vilão favorito de Batman. Se do Coringa temos compaixão, daquele primeiro filme temos a pena (em todos os sentidos). Do que ele trata? Não da loucura aberta, mas daquele descentramento próprio da falta, do não saber, da incerteza, da solidão subjetiva.

Ad Astra nos mostra viagens espaciais, humanos na lua, tecnologias avançadas de comunicação, o futuro como pano de fundo e, como enredo central, a busca do filho errático pelo pai perdido na órbita do distante planeta Netuno, ambos astronautas e mutuamente identificados apesar da distância. De um lado um adulto consternado na profissão e cheio de dúvidas, do outro, um pai até então desconhecido, lunático, supostamente ameaçador para a humanidade ao olhar da comunidade científica. Uma metáfora atual sobre o deslocamento do tempo, o presente vivido e o desenvolvimento psicológico de um homem.

O que há em comum entre Coringa e Ad Astra? A atual, porém nada mais antiga reflexão acerca da paternidade ou a relação pai e filho (ou o homem e sua cultura). Os destinos do enfrentamento da lei e as vicissitudes do desejo.

Coringa é vivido no drama do sofrimento, Ad Astra é vivido na dúvida do sofrimento.

Uma ideia importante. O pai ausente desequilibra noções de relacionamento com o outro. Um pai violento traumatiza e “paralisa” o tempo do desenvolvimento. Para que serve um pai em termos psicológicos? Para estabelecer regras, introduzir a pessoa ao social, demarcando os seus instintos e cerceando as relações imaginárias.  O pai mostra que sempre há um terceiro. Não é isso que pretendia o pai louco…provar que há vida no universo além Terra? Falhou miseravelmente, pois não foi um pai presente. O desconhecido deu-se a conhecer sem permissão.

O encontro aconteceu no final. Talvez nem se diga entre dois homens, mas o presente e o potencial futuro dele mesmo. Quantos morreram, quanto da realidade foi sacrificada para comprovar o devaneio, a conjectura idiossincrática. Assim é o delírio dos loucos, uma busca cheia de martírios, uma viagem diferente, solitária e distante, habitando planetas frios.

Mas uma hora morre, a desconexão é necessária para voltar a vida. O pai não quis retornar à Terra. Assim já estava escrito. Um grito de angústia dissipado na escuridão do universo. No final das contas a sobrevivência é que urge. Do calor e explosão da separação do pai ausente, o combustível propulsor para uma vida de sentido. Uma descoberta perigosa revelada.

Algumas lições..

apesar de tudo estamos sós, essencialmente sós…

a coragem é necessária para descobrir

a resiliência é necessária para continuar a jornada

nem sempre o conhecimento técnico é que nos move entre as estrelas

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Fortalecendo a mente imaginativa

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Recite esta invocação do séc III, tirada de Corpus Hermeticum escrito por filósofos egípcios. Ela fortalece a mente imaginativa.

“Eleve-se acima de toda altura, mergulhe mais fundo do que qualquer profundeza. Concentre em você todas as sensações de coisas criadas. De água, fogo, seco e molhado. Pense estar simultaneamente em todos os lugares da Terra, do mar e do céu. Pense em nunca ter nascido; em ser ainda um embrião. Jovem e velho, morto e além da morte. Abrace tudo ao mesmo tempo. Todo os tempos, lugares, coisas, qualidades e quantidades.”

Siga as instruções (na imaginação), repita:

“Salte, livre de tudo o que é físico, e cresça até ficar tão vasto quanto aquela imensurável vastidão, vá além do tempo e torne-se eterno, então você perceberá Deus.

Compreenda que nada é impossível para você; reconheça que você é também imortal e que pode conter todas as coisas em sua mente; encontre o seu lar no coração de cada criatura viva, faça-se superior a todas as alturas e inferior a todas as profundezas; traga todos os opostos para dentro de si em reconcilie-os, compreenda que você está em toda parte, na terra, no mar e no céu, perceberá que você ainda não foi gerado, que ainda está no útero que é jovem, que é velho, que está morto, que está além do túmulo, tenha tudo isso em mente, todos os tempos e lugares, todas as substâncias e qualidades e magnitudes, então vocÊ será capaz de perceber Deus. “

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O papel do psicoterapeuta junguiano

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A psicoterapia é um procedimento dialético onde há interação entre dois sistemas psíquicos e que se pressupõe trocas simbólicas.  Se há o desvio dessa tendência manifesta pela presunção de autoridade, a terapia se torna sugestão pautada no homem genérico em detrimento do individual. Jung assemelha essa realidade apresentada como terapia por sugestão  na “doutrina do Mana”. Mana é um poder curativo que existem em toda a parte,  homem, animal, planta. Ao que aponta Jung, Mana se refere a tudo que é  extraordinariamente eficaz, ou tudo o que impressiona, e  o que impressiona é  “medicina” em escala primitiva. O autor faz referência a amuletos, hipnose, ou  seja, tudo que tem reconhecimento de eficácia aceito socialmente. Mediante a  isso o autor aponta que o que importa é o método em que o terapeuta tem  confiança, fé, pois se ele acreditar o profissional fará por seu paciente tudo  quanto estiver ao seu alcance, com seriedade e perseverança, e esse esforço  promove um efeito terapêutico. Jung (1971) aponta que o terapeuta por estar sujeito e ter seus  preconceitos, concepções enfim, pode gerar pontos cegos. “Aquilo  que não  está claro para nós, porque não o queremos reconhecer em nós mesmos, nos  leva a impedir que se torne consciente no paciente, naturalmente em  detrimento do mesmo”.

“O psicoterapeuta está arriscado a contrair infecções psíquicas não menos perigosas [do que as contraídas por médicos em hospitais]. Assim sendo, por um lado corre o perigo de envolver-se nas neuroses de seus pacientes; por outro, ao procurar proteger-se contra a influência destes sobre si, pode privar-se do exercício do efeito terapêutico.” Pág. 16.

“A regra fundamental do psicoterapeuta é considerar cada  caso como novo e único. Assim se chega mais próximo da verdade.” JUNG,C.G. Civilização em Transição. (357)

“[…] O que torna a análise objetiva e oferece a oportunidade para uma ciência da alma é exatamente o aspecto objetivo e coletivo da alma. Este aspecto, a alma o tem em comum  com os outros e aparece na capacidade de conceber, imaginar, comportar-se e ser tocada, de acordo com metáforas fundamentais que Jung chamou de padrões arquetípicos.”

“Muito mais forte do que suas frágeis palavras é a coisa que você é. O paciente é impregnado pelo que você é – pelo seu ser real – e presta pouca atenção ao que você diz.”

“[…] O meu esforço consiste justamente em fantasiar junto com o paciente.  Pois não é pouca importância que dou à fantasia.[…] Toda obra humana é fruto da fantasia criativa.[…] A fantasia não erra , porque a sua ligação com a base instintual humana e animal é por demais profunda e íntima.[…] O poder da imaginação, com sua atividade criativa, liberta o homem da prisão da sua pequenez, do ser “só isso”, e o eleva ao estado lúdico. […] O que viso é produzir algo de eficaz, é produzir um estado psíquico, em que meu paciente comece a fazer experiências com seu ser, um ser em que nada mais é definitivo  nem irremediavelmente petrificado; é produzir um estado de fluidez, de trans formação e de vir a ser.” JUNG,C.G. A Prática da Psicoterapia.(98;99)

“[…]o psicoterapeuta  está  obrigado a um autoconhecimento e a uma crítica de suas convicções pessoais, filosóficas e religiosas, tanto quanto um cirurgião está obrigado a uma perfeita assepsia. O médico deve conhecer  sua “equação pessoal”para não violentar seu paciente.”   JUNG,C.G.  Civilização em Transição. (350)

“[…]Quando nos entretemos com alguém que “constela”, isto é, que tem conteúdos inconsciente ativados, surge no nosso inconsciente uma constelação paralela, ou seja, é ativado um arquétipo igual ou semelhante. E, como se está menos inconsciente do que o outro, e não se tem motivos para repressão fica –se cada vez mais presente ao seu tom emocional.[…]Experiências desse tipo são comuns sobretudo ao psicoterapeuta ou a alguém que muitas vezes tem a oportunidade de conversar – profissionalmente talvez – com pessoas  sobre assuntos íntimos delas e com quem não tem qualquer relacionamento pessoal”.

 

Alguns modos de atuação:

1) como Pintor e artesao (de imagens, mitos, simbolos)

2) como agricultor (plantar,colher, cultivar as funções psi)

3) como Alquimista (operador de transmutações, experimentador, construtor do vaso)

4) como Hermes (mensageiro dos enigmas)

5) Como Eros (facilitando a função transcendente)

6) Como analista (dos tipos psicológicos)

 

JUNG,C.G. A Prática da Psicoterapia. RJ:Vozes.,1985.

_________. Ab-Reação, Análise dos Sonhos e Transferência.RJ:Vozes,1987.

_________. Civilização em Transição. RJ: Vozes,1993.

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Grandes cérebros, corações partidos

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“Não dá para apaixonar e ser sábio ao mesmo tempo.”

Bob Dylan

 

A história da humanidade está aí batendo no peito para mostrar que relacionamentos difíceis não são apenas para pessoas comuns. Dos mais pobres aos mais ricos, dos mais ingênuos aos notáveis intelectuais. O que dizer destes últimos então que pretensamente estariam protegidos das desventuras do amor com sua sabedoria mas inadvertidamente sucumbem ao sofrimento e desespero?

O livro “Os grandes filósofos que fracassaram no amor” de Andrew Shaffer lançado pela Editora LeYa, traz 203 páginas recheadas de histórias daqueles que costumeiramente julgamos pelo pensamento mas desconhecemos a intimidade. 30 filósofos, 30 arrasados no amor. Para eles a vida vivida e sofrida, para nós fonte de deleite e humor. A reflexão por trás do livro é “Como saber da miséria e solidão do outro pode nos ajudar a encontrar a nossa própria essência?” Será confortante saber que mesmo os maiores homens e mulheres penaram das dores dos meros mortais comuns, gente como a gente?

As narrativas simples e diretas, embora não consigam suportar a complexidade do tema que trazem, aliviam em tom cômico e suave os retratos dos filósofos perdidos na história. Há um quê de fofoca e bisbilhotice movido pela fantasia, mas há também a curiosidade da busca nos registros biográficos e a coragem em divulgá-los. A vulnerabilidade antes disfarçada dos mestres e agora aflorada no texto, empodera e fortifica o leitor, autorizando-os, ainda que sutilmente, a desnudarem suas fragilidades.

Esquecimentos, explosões de fúria, traições, segredos,luxúria, ciúmes, inveja, desconfianças, medos, incertezas e desilusões; quem nunca passou por isso? Não precisa ser necessariamente o amor romântico de casal, o apaixonamento de namorados, por mais triste e angustiante que possa aparecer até no relacionamento familiar, nas relações fraternais, maternais e paternais, o circo pega fogo. Somos despreparados para isso por mais que estudemos e tomemos certas posições. Ao menos, sinal de vida e interação com o mundo. Os mais puritanos dirão que o amor verdadeiro não é nada disso, duvido seriamente deles.

A quem recorrer diante da miséria? Os livros de auto ajuda (psicoterapeutas e analistas principalmente) sempre falam do amor próprio. Esse ainda sim complicadíssimo de desenvolver e entender, não tão natural quanto parece ser, ainda mais pelas condições de criação, condicionamentos e patologias predominantes que gritam e destroçam o coração chegando ao cérebro e bloqueando o livre pensar. Um bom mestre diria: confie na sinastria, ouça o que os astros dizem, conheça suas tendências libidinais reprimidas, saiba as 5 linguagens do amor de Chapman, não idealize, não se iluda, não se apegue, identifique e interaja com os laços sociais da pessoa amada. Nada adianta no fim do dia, sempre caímos nas mesmas armadilhas. O sofrimento faz parte inevitavelmente, embora a cada oportunidade, um possível ponto de melhoria, imunidade e esvaziamento. Há os que persistem para acertar, os que persistem para errar e os que desistem. Para o terceiro tipo a queda no abismo e do vazio são lugares certos. Para os segundos o lamento neurótico e por vezes melancólico. Para os primeiros um desconfiado voto de confiança e esperança de dias melhores.

O livro de Shaffer para mim é uma autoajuda externa por exemplificação. Um ponto de fuga talvez ou um manancial de “auto vergonha alheia”para ser mais claro. Podemos aprender com os filósofos não só pelas suas palavras mas pelos seus próprios erros e descaminhos existenciais. Desejo que você faça a leitura do livro e depois me conte: para que você ama?

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A preocupação clínica do suicídio na atualidade: um ponto de vista winnicottiano

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A questão dos suicídio ou as questões, não morreram ainda, na verdade são bem atuais. Percebe-se que o ato suicida tem como característica o fato de ser clandestino, ou seja, sem testemunhos, dissimulado, ocorrendo como se estivesse transgredindo regras expressas por nossa sociedade capitalista na qual a morte é banida, não enfrentada e evitada. Segundo Sampaio & Boemer, o suicida, de certa forma, ainda é compreendido como um transgressor, porém, de regras legitimadas pela cultura social.

A postura dos profissionais da saúde têm evidenciado seu despreparo na assistência às pessoas que tentaram o suicídio, expresso pelo desprezo, agressividade e preconceito com que alguns as tratam.As dificuldades dos profissionais de saúde acerca desse tema precisam ser repensadas e trabalhadas em várias instâncias educativas, de forma que a dignidade das pessoas que atentam contra a própria vida possa ser respeitada e preservada. (Sampaio & Boemmer, 2000)

Entendemos desde já que o suicídio é viabilizado a partir de uma visão de mundo, no qual o homem cria uma realidade artificial, difícil de se abrigar e acolher, dando uma sensação de habitar a inospitalidade. (Camon, 2002). Observamos essa atitude como alternativa para devaneios e sofrimentos existenciais, algumas pessoas não estão necessariamente buscando a morte. O suicida muitas vezes se encontra num momento obscuro, onde as angústias vividas se tornam sem soluções, sem possibilidades de mudanças. Sem perspectivas o indivíduo não se ressignifica.

Freud ressalta que o processo psíquico que pode levar um indivíduo a desistir da vida de forma tão abrupta provavelmente seria através da pulsão de morte, onde o retorno à matéria inorgânica provocaria a ausência de tensões. As tensões representam para os suicídas forças que levam a uma incapacidade de suportar frustrações regredindo ao estado de desamparo; poder sobre o próprio destino, sobre a vida e a morte e, de certa maneira sobre o outro, sobre ainda daquele que se quis atingir com tal gesto. Freud, assim disse “[…] não se pode esquecer que o suicídio não é nada mais que uma saída, uma ação; um término de conflito psíquico”. (Siqueira, 2012)

Segundo Abadi, (citado em Bastos, 2009), a perda de um objeto libidinal valioso pode ser também uma das grandes motivações para o suicídio. Desaparecer da vida é o forte desejo da pessoa em comportamento autodestrutivo, tal como desapareceu para ela o seu objeto amado. Em outras palavras, o desejo de pretensamente obter novamente o indivíduo querido que morreu, por exemplo, é tão intenso que diante da impossibilidade de recuperá-lo na realidade consensual, tal pessoa não só se identifica de forma extremamente narcisista com o objeto perdido, como também pode destruir-se para acompanhá-lo ou tê-lo de volta, em sua fantasia.

Em termos gerais, na psicanálise, o suicidio poderia estar ligado tanto as neuroses quanto as psicoses, na maioria das vezes representado em estados limites. A gênese se dá por multiplos fatores ainda que se enfatize as vivências infantis e os conflitos interiores.Como exemplo, podemos citar as identificações narcísicas, o luto não superado, a fragmentação egóica, a passagem ao ato, entre outros.

 

O suicídio em Winnicott

 

Apesar de não haver publicado qualquer artigo específico sobre o suicídio, as características dos casos atendidos por Winnicott levaram-no a manter constante atenção sobre o tema e as citações a respeito podem ser encontradas em grande número de seus trabalhos.(Faria,2007).

Podemos tentar compreender o suicídio em Winnicott a partir da sua teoria do amadurecimento. No caso clínico específico do suicídio (e mesmo para a gênese de muitas outras psicopatologias), destaca-se a importância do impedimento da realização do ser, ou seja, do seu amadurecimento, como o ponto desencadeador das ideações suicidas. Assim, o autor considera que o impulso autodestrutivo pode estar presente já na infância, oculto sob uma inocente esfregação dos olhos (Winnicott, 1944). Pode também permear a luta do adolescente para tornar-se real, ou a percepção do adulto sobre a vacuidade de suas incursões pela vida profissional, amorosa ou social. (Faria, 2007).

Winnicott não possuía uma técnica única para aplicar no tratamento dos casos que atendia, uma vez que não há dois casos iguais. Como afirmou o autor: “o terapeuta deverá estar envolvido em cada caso como pessoa, razão pela qual não há sequer duas entrevistas que sejam semelhantes quando realizada por dois psiquiatras”. (Dias, 2008) Porém, Winnicott valia-se, principalmente, de diagnósticos e da sua teoria do amadurecimento como guia de suas práticas clínicas. O amadurecimento consiste uma tendência inata de integração do indivíduo em uma unidade, e, para que ele ocorra, o ambienta precisa fornecer ao bebê cuidados suficientemente bons. Segundo a autora Elsa Dias (Dias,2003), “apesar de o processo de amadurecimento não ser linear, algumas conquistas têm pré-requisitos e só podem ser alcançadas depois de outras, que são a sua condição de possibilidade.

Ou seja, a resolução satisfatória das tarefas de cada estágio depende de ter havido sucesso na resolução das tarefas dos estágios anteriores. Se ocorre fracasso na resolução da tarefa de uma certa etapa, novas tarefas vão surgindo, mas o indivíduo, não tendo feito a aquisição anterior, carece da maturidade necessária para fazer-lhes frente; ele pode até resolvê-las, mobilizando a mente e/ou uma integração defensiva do tipo falso si-mesmo, mas, apoiadas em bases falsas elas não farão parte intrínseca do seu si-mesmo como aquisições pessoais. Nesse caso, o processo de amadurecimento pessoal é paralisado e um distúrbio emocional se estabelece.”

Tal explicação de Dias (Dias,2003), traz algumas informações importantes à cerca do insucesso do desenvolvimento de algum estágio do amadurecimento e do surgimento do falso si-mesmo. E este é um ponto chave para tentarmos compreender o suicídio, assim como muitas psicopatologias, como Winnicott o faria.

O suicídio pode ser cometido ou idealizado tanto por pessoas que se encontram em um estado regredido de grande dependência, como também por pessoas que estão aparentemente “normais”. Para compreensão do suicídio nesses diferentes quadros, é importante ater-se à cisão do ego em verdadeiro e falso si-mesmo, como uma das principais raízes do problema que impendem o desenvolvimento ótimo do ser e podem acabar culminando num mecanismo de defesa tão profundo que acaba por torna-se um dos principais pilares da constituição do self (o que configura o falso self), podendo gerar no indivíduo um grande vácuo afetivo e uma forte sensação de angústia.

Para Winnicott, o bebê nasce sem a capacidade de diferenciar-se do mundo, sem a capacidade de relacionar-se com objetos e separar-se deles. Conforme progride o desenvolvimento, o bebê vai se integrando, até alcançar uma imagem unificada de si e do mundo. A mãe nesse sentido tem papel de prover a proteção necessária desse momento tão frágil e de atentar-se aos movimentos do bebê, dando sentido a eles: quando a criança chora ou da sinais de que está com fome, a mãe responde e oferece o peito, dando sentido às percepções e atividades motoras do bebê. A mãe-ambiente que deixa de responder ao gesto da criança, seja ao ausentar-se, seja impondo a ela e submetendo-a ao o seu próprio gesto sem que haja requerimento, prejudica o seu desenvolvimento, trazendo à criança a sensação de falta de controle, de inutilidade dos seus gestos. Esta situação caracterizaria a primeira fase do falso self, que constitui uma defesa em resposta a uma falha ambiental, ocultando o verdadeiro si-mesmo e protegendo-o de um aniquilamento.

Dependendo do estágio do desenvolvimento e do modo com essa defesa se organiza, o sujeito pode desde utilizar-se do falso si-mesmo  como auxilio na constituição das relações de vida normal até o extremo de um isolamento total do self verdadeiro, em que toda espontaneidade e criatividade estariam ausentes. Assim, a força do falso self pode ter diferentes sentidos na vida de um indivíduo. O que vemos em muitos casos de suicídio foi muito bem descrito por Faria (Faria, 2007), numa situação em que :

“Existe uma vida secreta e somente aí o indivíduo pode se sentir real, mas isso não é suficiente e ele se sente atingido em sua essência, em cada situação em que precisa respeitar ou se submeter às condições da realidade compartilhada. Nesses casos, o que pode nos aparecer clinicamente é uma busca constante de realização, fundada numa angustiante percepção, do indivíduo, de que suas relações com a realidade e com os outros se esgarçam antes que ele possa se inteirar delas, de modo que ele se vê, sempre e sempre, transformado na sombra de suas próprias possibilidades, que jamais se concretizam. Em tais situações, em que existe a percepção de que algo se perde a cada instante, numa vida que ainda não se tornou vida, o ser permanece suspenso sobre o abismo do aniquilamento, na expectativa de que o falso si–mesmo cumpra sua função de possibilitar a emergência do verdadeiro si–mesmo.

Quando as condições para a emergência do verdadeiro si–mesmo não ocorrem, para Winnicott, podem se organizar novas defesas contra a sua expoliação e, se houver dúvida, o resultado poderá ser o suicídio. Mas dirá ele ainda, sobre o gesto de esperança de considerar o suicídio como o único gesto espontâneo, numa tentativa de evitar o aniquilamento do si–mesmo verdadeiro. O falso si-mesmo se encarregará do ato, mobilizando estratégias próprias.

 

Em busca de um manejo adequado

 

A importância do conceito de manejo na clínica winnicottiana dá-se pelo contraponto que esta faz com a ideia estabelecida do fazer psicanalítico tradicional. À medida que Winnicott apoia-se na sua prática clínica para construir sua teoria do amadurecimento humano, fica clara a impossibilidade de se conceber o trabalho do psicanalista apenas como a interpretação do conteúdo inconsciente recalcado resultante de conflitos de natureza edípica. Neste trecho ele aponta, de maneira bem simples mas muito ilustrativa, como ele concebe a avaliação da condição do paciente para planejamento da terapia: “faço análise porque é do que o paciente necessita. Se o paciente não necessita de análise então faço alguma outra coisa.” (WINNICOTT, 1965, p.32). Esta “alguma outra coisa” trata-se, pois, do manejo.

O manejo pode ser entendido como o conjunto de ajustes técnicos no setting, visando atender às necessidades de cada paciente, restabelecer sua saúde e garantir sua continuidade no processo de amadurecimento pessoal. É manejo aquilo que o terapeuta faz espontaneamente, como um gesto inercial e aquilo que ele efetivamente planeja como intervenção, objetivando o bem estar do paciente. (DIAS, 2014). Ao ler os relatos de caso de Winnicott e os autorrelatos de alguns pacientes seus, como o de Margaret Little (LITTLE, 1990), encontramos uma grande quantidade de relatos de casos nos quais ele se valeu do manejo como alternativa à interpretação clássica, como formulada por Freud. O manejo torna-se, portanto, à luz da teoria do amadurecimento winnicottiana e juntamente com a interpretação, a tarefa do analista e faz-se essencial nos casos cuja etiologia da doença é a falha ambiental em estágios muito primitivos do amadurecimento. (DIAS, 2014). Falhas – sendo elas provocadas pelo excesso intrusivo ou pela privação -, vividas em um estágio cuja integração é ainda incipiente, podem marcar profundamente o modo como o sujeito se relaciona com o ambiente e consigo mesmo, fazendo-o sentir uma ruptura na sua linha da vida. Se o sujeito não tem espaço para ser espontaneamente ou não tem legitimados pelo ambiente seus atos espontâneos, é muito provável que ele vá criar mecanismos defensivos, falsos si-mesmos para responder às demandas ambientais, em detrimento daquilo que é seu, do que ele efetivamente é como pessoa. Daí surge a sensação de estranhamento da realidade, o sentimento de não pertencimento ao mundo, de estar vivo sem, no entendo, conseguir habitar subjetivamente a própria vida. Viver passa a ser, nesses casos, um gesto vazio, sem sentido e aparentemente desnecessário. Esta constituição pode levar o sujeito ao suicídio.

Em alguns pacientes, a busca compulsiva da morte responde à necessidade de retornar à ruptura do sentimento de continuidade da linha da vida para experimentá-lo enfim, para tentar recuperar pelo suicídio o controle de um aniquilamento que já ocorreu. Trazer à tona o que, de certa maneira, não pôde aflorar. “Muitos são os homens e mulheres que passam a vida se perguntando se a solução é o suicídio, ou seja, levar seus corpos à morte que já ocorreu na psique.” (WINNICOTT, 1974, p. 41 apud CHAMOND, 2010)

Diante de pacientes com ideação suicida, o psicanalista é, pois, convidado a exercer o seu melhor holding, a efetuar manejos cuidadosos a fim de impedir que o paciente veja a morte como a única saída, além de ficar atento aos sinais de cura, para que o assujeitamento do falso self ao tratamento não forje uma situação equivocada de melhora. Cabe a ele diagnosticar o ponto do amadurecimento em que o ambiente falhou e criar provisões para que o sujeito possa vir a ser. Cabe, ainda, a ele, tornar o setting confiável e assumir o papel de ambiente que sustenta no tempo e no espaço, o gesto espontâneo do sujeito, assim como faz um cuidador suficientemente bom:

O analista deve dispor de toda a paciência, tolerância e confiabilidade da mãe devotada ao bebê. Deve reconhecer que os desejos do paciente são necessidades. Deve deixar de lado quaisquer outros interesses a fim de estar disponível e ser pontual e objetivo. E deve parecer querer dar o que na verdade precisa ser dado apenas em razão das necessidades do paciente. (WINNICOTT, 1947/2000, p. 287)

Somente assim poderá emergir o verdadeiro si-mesmo, o paciente poderá regredir à dependência e encontrar um ambiente confiável, previsível e que o contenha, permitindo que ele exista de um modo que faça sentido pra ele, permitindo que, além de estar vivo, ele “seja”. Esta postura é possível a partir da utilização da ética do cuidado como guia para a prática. Este é um conceito também cunhado por Winnicott que se desenvolveu a partir do estudo dos vários sentidos que a palavra “cuidado” possui e dos seus desdobramentos para a clínica. LOPARIC (2013), em seu texto “A ética da lei e a ética do cuidado” nomeia, como um dos significados da palavra cuidado na obra de Winnicott, “(…) o fator essencial da formação da existência psicossomática e da posterior socialização dos indivíduos humanos: provisão ambiental.” (p.35). Esta é a ideia de cuidado referente ao cuidado materno dos primeiros anos de vida, mas que vale também para orientar o trabalho psicanalítico com pacientes em geral e também para aqueles em risco de suicídio, pois, no mesmo texto, um pouco mais a frente, ele aponta que é a preocupação materna, ativa, devotada e adaptativa que permite que o bebê constitua sua capacidade de levar “uma vida criativa que, seja ela boa ou não, tenha valor e valha a pena ser vivida.” (p.35, itálicos do autor)

O analista, enquanto oferece o seu setting e o seu trabalho como ambiente seguro para que o paciente alcance a saúde, deve “assumir o lugar de quem cuida”, estar disponível para “deixar ser o outro como é e como pode ser, independentemente da possibilidade de ser do outro que se apresente em um dado momento da relação terapêutica.” (DIAS, 2013, p.35, itálicos da autora).

A busca por um manejo adequado ao tratamento de pacientes em risco de suicídio vai ser construído caso-a-caso, observando-se as necessidades individuais de cada paciente, levando em consideração o caráter eminentemente regressivo destes casos, respeitando o seu sofrimento e oferecendo a ele o melhor cuidado que o analista for capaz de despender.

 

Encontrando motivos para viver

 

Dos inúmeros casos relatados por Winnicott, um dos mais emblemáticos talvez seja o de Margareth Little, mulher impulsiva e de personalidade muito forte que exteriorizava sua agressividade atacando as pessoas e os ambientes em que se encontrava, inclusive o analítico. Pertencendo a um estado limite de comportamento, requeria do seu analista uma paciência extraordinária.

Quando procurou Winnicott vinha tendo ideações suicidas e sentimentos paranóicos evidentes de que as pessoas estavam se afastando dela e sua vida já não fazia mais sentido. Acolhendo-a, presenciou uma série de desventuras, sendo que uma delas representou, para a relação transferencial estabelecida, uma catarse solucionadora.

M.Little entrou um dia no consultório e desferindo sucessivos investimentos de fúria contra seu analista, pegou o seu objeto favorito, um vaso de margaridas, e o lançou ao chão quebrando-o em pedaços.

Para confirmar sua desaprovação, Winnicott tomou uma decisão sábia: deixou-a refletindo sobre sua atitude enquanto metabolizava aquela situação. Não era um abandono, apenas uma tentativa de mostrar à paciente que as atitudes tem repercussão nas relações que ela estabelece no mundo.

Voltando ao consultório ele percebeu Margareth tentando reparar aquele comportamento, falava da possibilidade de colar os fragmentos do vaso. Consolando-a, Winnicott retomou a análise.

O vaso de margaridas era como ela, sua projeção. Atacava o que não suportava em si. O vaso de água era o falso self em que repousava e permanecia vivendo na ausência da autenticidade, escondendo suas potencialidades. Pôde perceber que, mesmo tendo espatifado, as flores que sustentava permaneciam intactas, prontas para se libertarem. As margaridas consistiam no verdadeiro self mascarado pelo vaso, escondido, protegido a qualquer custo.

Após aquela sessão, as coisas foram mudando e a continuidade do seu ser que fora interrompida em algum momento do seu processo de amadurecimento, retornou ao seu curso devido. As ideações suicidas foram diminuindo até serem extintas, pode controlar melhor sua impulsividade e utilizá-la de forma mais criativa, além disso, tambem passou a elaborar de maneira diferente sua relação com as pessoas.

Observando o mundo contemporâneo, percebemos a grande doença que envolve uma sociedade mergulhada em ideais a serem alcançados, uma postura condenativa de evitar os sofrimentos existenciais sem perceber o seu papel no desenvolvimento e constituição psíquica. Vivemos uma realidade trágica que o avanço da ciência não consegue responder ou lidar, aliado a isso vem a morte da experiência religiosa, o absurdamento e a sensação do vazio. As singularidades são desmentidas e ignoradas, o processo mercantil definiu um modelo de vida determinado por regras específicas.

Para contornar a falta e a dor que não podem ser sentidos na nossa sociedade, as pessoas envolvem-se em vícios, drogadições, rituais de auto-flagelamento, apatia, abulia, solidão. No final das contas, o suicidio é só uma marca de encerramento, elas já vão morrendo aos poucos e o psiquismo, na verdade já está morto há muito tempo,só restando o corpo para ser extinto.

“A metamorfose” de Kafka retrata muito bem isso: o caixero viajante se dá conta de uma transformação monstruosa que revela as relações doentias familiares, uma espécie de parasitismo mútuo escondido na rotina severa que enfrentavam. Samsa morreu cansado da vida, assim como grandes personagens reais da história que suicidaram, a diferença é que nós não percebemos neles, motivos consistentes. Lembramos aqui Virgínia Woolf, Tchaikovsky, Kurt Cobain, Robin Williams e os brasileiros Santos Dumont, Getúlio Vargas, Pedro Nava, fora as 804 mil pessoas que cometem suicídio todos os anos segundo a OMS – taxa de 11,4 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes. O Brasil é o oitavo país em número de suicídios. Em 2012, foram registradas 11.821 mortes, sendo 9.198 homens e 2.623 mulheres (taxa de 6,0 para cada grupo de 100 mil habitantes).

Muitos deles eram talentosos, tinham prestígio social, luxos materiais, entre outras coisas. Já não era o suficiente? Não, pois a vida contempla dimensões maiores que a mera satisfação material e se esclarece ou brota mesmo é da autenticidade.

Eles viviam sobre máscaras, personalidades criadas, falsos si-mesmos avassaladores, fechados na individualidade egocentrica e esquecendo-se da singularidade  diferencial de cada um deles, que eram raios de sol do verdadeiro self que ultrapassavam a escuridão.

Enraizaram-se em modos de ser determinados, sem provocações, embora fizessem coisas criativas e únicas no âmbito cultural. À luz da teoria winnicottiana, identificamos a possibilidade das falhas no amadurecimento pessoal, o ambiente hostil invasivo, pleno de excessos. Essa pessoas não tiveram os momentos primordiais vividos de maneira saudável e colheram na adultez, os frutos dessa lacuna, expressão do vazio.

O que tem os psicanalistas a fazer? O seu trabalho é preventivo ou remediador? Como atuar nessas situações? Destarte, a clínica deveria ser extendida à conscientização social. Os indivíduos que cometem suicídio são doentes e imaturos (existe também a possibilidade de não serem nada disso). Mas acima das suspeitas psicogênicas, paira a realidade do sofrimento social, das relaçoes patológicas intersubjetivas degradantes.

Sabemos que o caminho para abordar cada paciente é único, pois eles mesmos são únicos, mas determinadas histórias se repetem e evidenciam a negação da sombra, a falsidade, o propósito perverso de certos segmentos sociais, todos convertidos em sintomas amplamente conhecidos pelos psicanalistas.

Sabemos que nem todos terão o mesmo destino de Margareth certamente. Pelo menos, colocarão a existência em análise e nas suas minúcias perceberão as questões que lhe são própias e aquelas da própria situação pós-moderna.

Por que viver então? Porque se quer viver. A vitalidade é inata, um instinto natural. Como sentí-la? Encontrando o sentido ou fazendo-o. De que modo? Criando através do trabalho, experimentando o amor e a responsabilidade, enfrentando o sofrimento, a culpa e a própria morte, pois ninguém escapa da finitude, da falha e da dor. É fácil? Definitivamente não. É o mal estar de existir. Sejamos no entanto conscientes e justos em nossas ações, morrer e deixar de viver são coisas diferentes. Existem os suicídas, mas também os suicidados. De quem é a culpa? Da miséria humana de todos. Deixar de suicidar significa alienar-se aos problemas? Não. É uma vitória sobre a guerra da indiferença, a vitória da ética do cuidado, a conquista da diferenciação e superação do ódio, do medo e do cinismo, a manifestação arquetípica do herói.

 

Considerações finais

 

Vimos que quando as condições para a emergência do verdadeiro si-mesmo não ocorrem, nos dirá Winnicott, podem se organizar novas defesas contra a sua expoliação e, se houver dúvida, o resultado poderá ser o suicídio. O suicídio poderá ser o último, e talvez o único gesto espontâneo, numa tentativa de evitar o aniquilamento do si-mesmo verdadeiro, o falso si-mesmo que o organizará e o consumará.(Faria, 2007)

As duas citações iniciais nos ensinam muito sobre a postura que deveríamos tomar diante da mortificação lenta e até sumária da vida na atualidade. Haja vista o nosso conhecimento de que nas angústias experimentadas necessitamos de um ambiente acolhedor ou mesmo da presença de um cuidador suficientemente bom que pode não ter existido em nossos estágios primitivos, então nos enredam grandes questionamentos para refletirmos: qual o nosso papel diante do sofrimento do outro? O que há de nosso na produção ambiental que influência a degenerescência das relações no mundo contemporâneo e que acabam por provocar o vazio e o absurdamento?

A partir de tudo que expomos, entendemos que o suicida quer aliviar suas tensões e esconde um amadurecimento precário, uma formação insegura e desestruturada.Para a psicanálise o trabalho, delineia-se no sentido de trazer à tona a consciência do paciente, que apresenta seus impulsos e desejos reprimidos. O intuito é fortalecer o ego e, sobretudo, levando as modificações das relações internas de objeto, através da eliminação das resistências. Outro veio que possibilita essas intervenções, consta do acesso ao material inconsciente do analisando transformado em transferência, ou seja, a análise segue num percurso obscuro dos processos psicológicos do paciente dirigidos ao analista e derivados de outras relações de objetos anteriores. O que contribuirá de forma definitiva ao atendimento de um suicida. (Siqueira,2012).”Setting” e “holding” têm importância fundamental.

Por fim, como disse Winnicott, lembrado por Lannes, a psicanálise não cura, ainda que seja verdade que um paciente possa fazer uso dessa técnica para alcançar, em processo suplementar, um grau de integração e socialização e descoberta de si mesmo que ele não alcançaria ou não poderia alcançar sem ela. (Lannes,2000)  Muito há de se aprender com esse teórico que fez da vida uma existência de grande admiração e gozo, não deixando de compartilhar esse afeto no seu corpo teórico.

 

 

Referências Bibliográficas

 

BASTOS, Rogério L. Suicídios, psicologia e vínculos: uma leitura psicossocial.Psicologia USP, São Paulo,2009, 20(1), 67-92

CAMON, Valdemar Augusto Angerami. Suicídio: fragmentos de psicoterapia existencial. São Paulo: ed. Pioneira, 2002.

DIAS, E. O. (2003).  A teoria do amadurecimento de D. W. Winnicott. Rio de Janeiro: Imago Editora.

FARIA, Flávio Del Matto. A questão do suicídio na teoria de D. W. Winnicott. Winnicott E-prints volume 2 nº1, série 2 ano.2007.

LANNES, Edson S. Na Fronteira do Viver. Trabalho apresentado no IX Encontro Latino-americano sobre o pensamento de D.W. Winnicott (20 a 22 de outubro de 2000, no Rio de Janeiro).

MAIA, Maria V. C. M. Há crianças que morrem na infância sem ninguém perceber: o falso-self como defesa ao excesso de falta de amor materno.

SAMPAIO, M.A.; BOEMER, M.R. Suicídio – um ensaio em busca de um des-velamento do tema. Rev.Esc.Enf.USP, v.34, n.4, p. 325-31, dez. 2000.

SIQUEIRA, Thomaz D. A.  A percepçao psicoterapêutica do suicidio na terceira idade na abordagem fenomenológica existencial. BIUS N°1. 3, 2012.

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A idealização na teoria Psicanalítica

the-smoke-ring.jpgAtravés de uma re-visita a alguns teóricos psicanalíticos, constata-se o consenso sobre a existência de uma certa necessidade humana de criar um eu ideal, aquele que será de todo desejado e estará acima de qualquer possibilidade de ser alcançado. A Idealização consiste justamente nisso: em atribuir ao outro qualidades de perfeição, percebendo-o como aquele que possui somente características positivas. É, portanto, uma forma de perceber aquele à quem se ama ou se admira de forma parcial, incompleta, irreal e por assim dizer, imaturo, colocando-o num lugar impossível  de ser alcançado.

Facilmente detectamos a presença da idealização em vários momentos da nossa vida. A paixão, por exemplo, revela claramente esse conceito. A pessoa apaixonada está sob o domínio de certo estado emocional em que o objeto da paixão está supervalorizado em seus atributos. Na realidade, a idealização é uma projeção de valores ideais da pessoa “apaixonada”, resultado dos modelos ideais da sua pré-história. Pré-história, porque esses valores ideais remetem aos primeiros modelos de relação do ser humano, que são os pais. E são modelos carregados de projeções que fazem parte do “arsenal fantasmático” de cada um. Freud, Klein e Winnicott apontaram em suas obras, de forma mais ou menos explícita, para o mecanismo da idealização que é natural quando o bebê começa a se relacionar com seus objetos de apego, no caso, a mãe.

Freud defende que esta idealização se origina do próprio narcisismo infantil (dos pais) que faz com que  a relação com o filho seja carregada de perfeição e de onipotência. Ele aponta que, na ausência do seio da mãe, o bebê irá criar um seio para si,  tamanha a intolerância do pequeno humano diante das frustrações. Em “Psicologia das Massas” (Freud, 1921/2015), Freud retoma esta ideia numa análise mais abrangente e aponta que o humano, diante de sua extrema dependência e fragilidade, particularmente diante da morte, tem a necessidade  de criar e de acreditar em algo maior, onisciente e onipresente, quer seja em Deus, na ciência ou em si mesmo.

Melanie Klein, por sua vez, acredita na função defensiva da idealização. Nesse caso, a pessoa afasta os seus próprios aspectos destrutivos, negando-os, e deixando o objeto amado provido somente das qualidades e dos aspectos bons. Por isso torna-se idealizado. O namorado passa a ser perfeito. Aquela profissão é tão maravilhosa que tornará a pessoa famosa e inevitavelmente bem-sucedida. A dificuldade é com a realidade das coisas, que traz as contradições existentes nos sentimentos e nos desejos. A idéia de se ter um “mar de rosas” é extremamente ilusória e idealizada e representa essa dificuldade de suportar uma realidade que, ao contrário, denuncia a existência constante de frustrações na vida. O psicanalista inglês, D.Winnicott, lança mão da idéia de uma mãe suficientemente boa que irá encarnar para o bebê toda a idéia de perfeição e apresentar a ele o seio no exato momento em que ele o deseja, dando ao bebê a sensação dele próprio ter criado o seio. Chama isso de momento de ilusão (Winnicott, 1975).

Este anseio pelo ideal, se por um lado torna possível o apaixonamento, a criação de belíssimas obras de arte e as utopias e anseios por um mundo melhor, por exemplo, pode complicar a vida cotidiana, porque na realidade mesmo, todos os objetos de apego (dito de outro modo, as pessoas que gostamos), assim como a própria realidade,  são falhos e nos frustam em muitas ocasiões. A intolerância ao objeto frustrante (família, parceiro amoroso, professor, analista, etc.) anda conjuntamente com a idéia, muitas vezes mantida com muito custo, de que há um objeto ideal que, este sim, poderá suprir toda a falta e carência humana.

O objeto, por ser ideal, como a própria palavra já diz, não existe. Em linguagem vulgar “só existe dentro da nossa cabeça”. Na medida em que conhecemos mais o outro, e nós mesmos na companhia deste outro, descobrimos aspectos que não esperávamos: podem ser surpreendentes ou enfadonhos, intensos ou sombrios.

Klein chama esta vivência de posição depressiva. Quando vivenciamos sentimentos contraditórios pela mesma pessoa ou um símbolo qualquer, é que conseguiremos expandir nossa mente e nossa capacidade de sentir e de simbolizar, assim como ficaremos mais tolerantes conosco e com o outro pelas nossas humanidades e imperfeições.

Portanto, quanto maior for a capacidade para tolerar as frustrações e aceitar que as pessoas, as profissões, as relações, os planos, são constituídos de elementos positivos e negativos, de aspectos bons e maus, mais madura a pessoa estará e, consequentemente, necessitará menos de idealizações. O bom já será suficiente, não precisará do ótimo. Mas aceitar a realidade dada é fugir da ilusão e resignar-se num porto seguro? O próximo tópico abordará a questão do conceito de ilusão como uma faceta da idealização ou mesmo um dos seu vários nomes, ressaltando sua importância na compreensão e interpretação dos fenômenos presentes na formação da cultura e do espaço social.

Referência Bibliográfica

Winnicott, D.W. (1975). A criatividade e suas origens. In: O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago.

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Hume e o papel da imaginação na construção do conhecimento

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*Por Teca Pereira


Origem das Ideias

Para compreender o pensamento de David Hume acerca do papel da imaginação no processo de construção do conhecimento humano, é preciso entender como as ideias ou pensamentos são desenvolvidos. O pensador defende que as ideias ou pensamentos formulados pela mente humana são resultados da experiência sensível e apresentadas como imaginação (memória, recordação). A imaginação associa essas ideias por meio de alguns princípios e, assim, formula novas ideais e, a partir daí, infere conclusões sobre os fatos do mundo. Mas diz que “a imaginação pode copiar as sensações do sentido”, mas jamais alcançará a força da vivacidade da sensação original.

O máximo que podemos dizer delas, mesmo quando atuam em seu maior vigor, é que representam o seu objeto de um modo tão vivo que quase podemos dizer que o vemos ou o sentimos. Mas ao menos que o espírito esteja perturbado por uma doença ou loucura, nunca chegam a tal grau de vivacidade que não seja possível discernir as percepções dos objetos. (HUME, D. Investigação acerca do Entendimento Humano)

Para Hume, o mundo é constituído por fatos. A mente humana é formada por um conjunto de percepções formuladas pela experiência. Essas percepções são impressões e ideias (pensamento). O que as diferenciam são os graus de força e vivacidade. Enquanto as impressões são as percepções mais vivas, ou seja, é o ato; as ideias ou pensamentos são menos vivas, ou melhor, são as recordações e memórias (imaginação) do ato, da experiência.

Ou melhor, para a construção de um conhecimento, sempre há algo na mente fornecido pelos sentidos, que o autor chama de imagem ou pensamento. Para melhor explicar essas percepções, Hume as classifica em simples e complexas.

“Todas as percepciones de la mente humana se deducen a dos gêneros distintos que yo llamo impresiones e ideas. La diferencia entro ellos consiste em los grados de fuerza y vivacidad com que se presentan nuestro espíritu y se abren camino em nuestro pensamiento y conecimento.” (HUME, D. Tratado sobre La Naturaleza Humana).

Enquanto as percepções simples não permitem separações, as complexas são justamente as que permitem. “A unque um color, sabor y olor particular son cualidades unidas todas em una manzana, es fácil percibir que no son lo mismo, sino que son al menos distinguibles las unas de las otras” (HUME, D. Tratado sobre La Naturaleza Humana).

Nesse caso, a maçã é uma ideia complexa. Ou seja, o conhecimento da maçã nos é dado por meio de uma série de impressões e ideias. A cor, o sabor, o cheiro, a textura, enfim, uma série de características – que são concebidas por meio dos sentidos e da experiência – nos dão o conhecimento da maçã. Podemos concluir, então, que as ideias ou os pensamentos são derivados das impressões.  Porém, como já dito anteriormente, embora encontremos semelhanças para a associação de ideias e impressões, o que as distinguem são justamente a força e vivacidade. No Tratado sobre la Naturaleza Humana, Hume afirma:

“La primera circustancia que atre mi atención es la gran semejanza entre nuestras impresiones e ideas en todo outro respecto que no sea su grado de fuerza e vivacidad. Las unas parecen se em cierto modo el reflejo de las otras, así que todas las percepciones del espíritu humano son dobles y aparecen a la vez como impresiones e ideas.”

É importante reforçar que na obra na qual se encontra a citação anterior, o autor defende que os princípios ‘força e vivacidade’, além de distinguirem impressões de ideias, também servirão para diferenciar as formas de ideias.

Para explicar como as ideias ou os pensamentos são derivados das impressões por meio dos critérios ‘força e vivacidade’, é preciso entender que esses critérios das impressões são comunicados às ideias correspondentes, porém nunca em sua totalidade. O que prova que as impressões são mais vivazes e fortes que as ideias ou os pensamentos. Isso quer dizer que os sentidos nos possibilitam uma impressão. E, por isso, esse tipo de percepção é mais forte e vivaz do que a ideia que se pode ter na mente. Exemplificando: comer a maçã, sentindo o seu  sabor, seu odor e sua textura é uma impressão mais forte e vivaz do que a imaginação ou a memória do ato de comê-la.

A ideia só é possível por meio da experiência. Mesmo quando fazemos uma associação de ideias simples para chegarmos às ideias mais complexas, podemos fazê-la apenas por meio da experiência de percepções (impressões). Porém, segundo Hume, as ideias também podem nascer independentemente de impressões correspondentes. A respeito dessas associações, Hume diz em Investigação acerca do Entendimento Humano:

“Pergunto se lhe seria possível, através de sua imaginação, preencher este vazio e dar nascimento à ideia dessa matriz particular, que, todavia, seus sentidos nunca lhe forneceram? (…) as ideias simples nem sempre derivam das impressões correspondentes, mas esse caso tão singular é apenas digno de observação e não merece que, unicamente por ele, modifiquemos nossa máxima geral.

(…)todas as impressões, isto é, todas as sensações, externas ou internas, são fortes e vivas; seus limites são determinados com mais exatidão e não é tão fácil confundi-las e equivocar-nos. Portanto, quando suspeitamos que o termo filosófico esta sendo empregado sem nenhum significado ou  ideia (…) devemos apenas perguntar: de que impressão é derivada aquela suposta ideia? E, se for impossível designar uma, isto servirá para confirmar a nossa suspeita. E razoável, portanto, esperar que, ao trazer as ideias a uma luz tão clara, removeremos toda discussão que pode surgir sobre sua natureza e realidade.”

A imaginação na construção do conhecimento

Embora a obra analisada em sala de aula tenha sido Investigação acerca do Entendimento Humano, ao definir “Imaginação” como foco do trabalho apresentado, o autor do mesmo sentiu a necessidade de conhecer o Tratado sobre la Naturaleza Humana, pois, na referida obra, o tema ‘a construção do conhecimento humano’ também é foco de investigação. No Tratado, o pensador, como já dito anteriormente, defende que as ideias são objetos das impressões, portanto os princípios ‘força e vivacidade’ também servirão para diferenciar as formas de ideias, que podem ser mais vivazes e fortes do que outras. “Hay aún outra diferencia entre estos dos gêneros de ideas y que no es menos evidente, a saber: que unque ni las ideas de la memória e ni las de la imaginación”, afirmou Hume, em o Tratato.

Ou seja, Hume diz que temos as ideias mais vivazes e fortes da percepção de impressão, que ele classifica como memória; e as ideias menos vivazes e fortes, classificadas como imaginação. Explicando melhor: Hume define ideias de imaginação as associações livres das impressões passadas, enquanto as ideias de memória ocorrem em nossa mente de forma ordenada e seguindo a cronologia dos fatos. Portanto, as ideias de memória são mais vivazes e fortes que as ideias de imaginação, pois a última pode ocorrer apenas por meio de associações de ideias, seja simples ou complexa, sem passar pela experiência direta dos fatos, sendo, essas, fantasiosas.

Isso nos leva a perceber que também as ideias, assim como as impressões, podem ser associadas de maneira diferente da apresentada da original. Voltamos, então, a distinção que o pensador faz de ideias e impressões simples e complexas; a primeira não pode ser descompostas, diferentemente da segunda, que possibilita a separação. E é essa possibilidade dessa separação que nos permite associar essas ideias em diferentes combinações.

Quando essas ideias se assemelham a uma impressão passada, temos uma ideia de memória; já quando essa associação de ideias é livre, ou então parte dessas ideias e cria algo sem correspondência direta à impressão, temos a imaginação. E aí entramos em uma outra questão importante na construção do conhecimento humano e o papel da imaginação nesse processo: a crença. A crença é uma forma peculiar de entender uma percepção, que pode ou não ser acompanhada dela. Por isso, é importante a distinção entre ideias de memória e ideias de imaginação.

Vamos recapitular: as ideias de memória, que ocorrem em nossa mente de forma ordenada e seguindo a cronologia dos fatos, possibilitam o saber se essa impressão é primeira, realizada por repetições de impressões, ou por semelhança à impressões já vividas, ou se agem de outra forma. Por exemplo, se vemos fumaça, logo associaremos a fogo. Ou então, se é noite, logo vem o dia, ou vice-versa. Ou mesmo se já passamos pela experiência de ter tomado um líquido quente e queimado a boca, o liquido quente nos remeterá a ideia de queimar a boca. Teremos aqui o que Hume chama de causa e efeito.

Ou seja, quanto maior a ocorrência de fatos por associação de certas conjunções, maior a força do hábito e a crença de que tais fatos por meio de certas conjunções ocorrerão. Essa sensação de que se repetirá o fato é diferente quando desenvolvemos um ideia de imaginação, porque ela ocorre por associações de ideias que não se correspondem. Exemplo: uma montanha de ouro: conhecemos a ideia de montanha e a ideia de ouro, e as associamos, porém é uma ficção, uma fantasia. E o que nos leva a distinguir a memória da imaginação (fantasia) é justamente a não experiência vivida do ato (a montanha de ouro) e a força do hábito dessa experiência. A repetição da experiência acontece pelas ideias de memória, enquanto a superação desses limites se dá pelas ideias de imaginação. Característica que permite a criação das inferências.

Uma das diferenças entre as ideias de memória e de imaginação, é que a primeira é involuntária, pois surgem na mente por meio das associações de percepções vividas, e, com isso, são limitadas. Já as ideias de imaginação são livres, fazem associações de percepções que não são correlatas e, portanto, ilimitadas. O grande desafio é saber como distinguir uma ideia de memória da ideia de imaginação, porque, como o próprio Hume diz no Tratado, que uma percepção de uma impressão com o tempo torna-se tão fraca, que pode ser confundida com uma ideia de imaginação; e o contrário também pode acontecer. E nesse caso teremos o que Hume chama de “falsa memória”.

Hume não vai apresentar uma solução para o caso, apenas reforçará o critério de vivacidade e força. Isso porque a mente, ao associar as ideias livremente, parte de uma impressão do passado e isso só pode acontecer pela crença – forma peculiar de entender uma percepção – e que está diretamente associada à força e a vivacidade da percepção e essa seria a grande diferença entre ideias de memória e de imaginação.

 

Referências Bibliográficas

*Trabalho apresentado em 2009, em cumprimento às exigências do Curso de Licenciatura em Filosofia da Faculdade de Humanidades e Direito da Universidade Metodista de São Paulo, para o Módulo “Epistemologia”.

HUME, D. Investigação acerca do entendimento humano. Tradução Anoar Alex. São Paulo: Acrópolis, 2006.

HUME, D. Tratado de la natureleza humana. Tradução do inglês Vicente Viqueira. Libros em la Red, 2001.

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